Ode às manhãs de quinta-feira
(Postado em 16/10/08, às 11:33.)A cidade do Rio de Janeiro tem 14,5 milhões de habitantes. Desses, apenas dois estavam no alto do Corcovado na manhã de hoje, contemplando a paisagem urbana mais linda do planeta.
Um deles era o Osama, porque ele está sempre. Não chega a ser mendigo de profissão, pelo menos nunca o vi exercê-la, mas tem toda a pinta de não possuir outros bens materiais além da própria roupa, uma Bíblia, que está sempre a ler, e uma barba à Matusalém. Dizem que ele dorme por ali mesmo, eremita total, mas não é imundo, não pesa o ambiente. Deve contar com a conivência dos seguranças, que, como eu, hão de simpatizar com a figura.
O outro era eu, porque tinha ido de bicicleta. Treino solitário, após mudança súbita nos planos do grupo original. Nunca tinha ido tão cedo para aqueles lados. A guarita estava ainda fechada, mas bicicletas passam por qualquer fresta. Pedestres também passam, mas não são muitos os que se aventuram a subir aquilo a pé. Não às seis e pouco da manhã.
Tinha decidido não mais escrever cartas abertas de amor a cidades, montanhas e estradas. Mas o treino de hoje foi tão prazeroso, tão sensacional, que simplesmente não posso evitar.
Posso evitar aborrecê-los com os detalhes técnicos do treino em si. O que importa é que, ao final, feliz era pouco para definir meu estado. Pelo treino perfeito, que aliás contou com duas quebras de recordes pessoais, particularmente bem-vindas após as três semanas que me viram de molho com uma inflamação no tornozelo direito; por morar no Rio; por fazer sol e céu azul; e por ser apenas uma quinta-feira. Os mais ordinários dos dias, como as pessoas que assim parecem, podem esconder histórias extraordinárias. Saí de lá quase bobo, quase sem acreditar.
A guarita só abriria para a horda motorizada uma hora mais tarde. Uma hora mais tarde eu estaria no trabalho, disfarçando o sorriso para que ninguém perguntasse se eu vira afinal o tal passarinho verde, mas extremamente satisfeito por ter sido o único, entre 14,5 milhões, que flagrou, daquele mais privilegiado dos camarotes, a cidade de pijamas. Sim, o único, porque o Osama não tirou os olhos da Bíblia nem por um segundo.
Depois do Corcovado, ainda pedalei até o mirante do morro Dona Marta, lugar que me era desconhecido. Bonita demais a vista que se tem do heliponto que há lá em cima, principalmente pela inexistência de grades ou muretas. A bicicleta ficou deitada no centro daquele enorme quadrado verde destinado aos helicópteros, enquanto eu — sentindo-me meio como o alpinista que chega ao pico fascinante mas não tem ninguém ali para compartilhar o momento, e ainda que seus melhores amigos fossem até lá, de carro, helicóptero ou espaçonave, sua percepção seria bem outra — só tentava imaginar quantos lugares incríveis a cidade estaria ainda a esconder.
Este é, certamente, meu começo perfeito de dia. Cada um com seu cada qual, mas confesso que senti certa pena dos outros quatorze milhões, quatrocentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e oito. Bom dia a todos.
October 16th, 2008 at 1:29 pm
Eu já senti essa alegria também, mas não tenho lugares tão bonitos para treinar nas primeiras horas dos dias úteis de uma semana. É o que eu digo para quem quer começar a pedalar: Se a bicicleta fizer por você, o que ela faz por mim…
Esse esporte é demais… A bicicleta não é apenas um conjunto de oito tubos soldados. É algo inexplicável.
Bom dia para você também e obrigado por transmitir essa felicidade a nós.
October 16th, 2008 at 2:01 pm
Show ! também tenho a habito de treinar e me exercitar pela manhã mas assim como o Bruno , aqui não existe uma geografia tão explendorosa , porém a sensação de “exlusividade” das manhãs quase madrugadas é prazeirosa do mesmo jeito.
Escreva sempre Fabricio !!!
October 16th, 2008 at 2:41 pm
“Fabricio”?
Valeu, Bruno e Adriano, pelos comentários!
Abraços,
Vinícius.
October 16th, 2008 at 3:09 pm
Desculpa Vinicius … estou meio fora do ar , perdi um irmão ainda ontem , ai confundi vc com o FAB1000 , sabe como é , tudo carioca ..hehehe…
October 16th, 2008 at 5:06 pm
Fala Araponga Manca, quebrar recordes pessoais faz parte do cotidiano da “Granja” que bom que você não desistiu do treino, a galera fura bastante e briga bastante, porém ao final tudo volta aos eixos. Um abraço, Frango (ainda de molho)
October 16th, 2008 at 6:22 pm
Ô Bruno! Oito tubos? Steering tube, Top tube, Down tube, Seat tube, Seat stays (2), Chain stays (2) e o movimento central… Deu 9
Ô Murcha! Sentiu pena dos “outros quatorze milhões, novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove”? Mas não eram 14,5 milhões?
Negada tá pedalando horrores mas assassinando a matemática!!!!!
(Ok, assumo, sou chato. Fico procurando picuinhas na perfeição dos textos alheios…)
Bom, o que importa é em que pé está o pé
October 16th, 2008 at 7:19 pm
Adriano, sinto por seu irmão. E claro que nem precisava nem se desculpar. Abraço!
Frango, só tem figuraça nessa granja, já vi tudo. Me sinto em casa!
Melhoras aí.
Putz, Cepa, ninguém reparou (nem eu). Vou corrigir hehehe. Valeu!
October 19th, 2008 at 8:39 pm
Invejazinha boa. Da experiência e do jeito de escrever. Quando crescer, quero ser assim.
December 1st, 2008 at 10:12 pm
Que saudade de vcs e dessa cidade… o Rio em si já é lindo… mas confesso que seus textos amplificam – merecidamente – o valor desse lugar e junto com ele, a minha saudade…
October 5th, 2009 at 2:27 am
Que maravilha de programa, de texto…
Parabéns, Vinicius!