Primeiro treino na madrugada
(Postado em 09/05/07, às 8:21.)Acabo de chegar de meu primeiro treino verdadeiramente madrugal. É claro que muitas vezes já comecei no escuro um daqueles longos dias de pedal no meio de uma viagem qualquer. Mas acordar às três da matina, sair, rodar 60 Km e voltar ainda no breu da noite foi a primeira vez.
Deixo dito que não sou ciclista profissional, tampouco o tipo do amador forte que pedala há séculos e treina em equipes ou pelotões regulares para competições regionais e nacionais. Apenas escolhi, há poucos anos, fazer da bicicleta uma alternativa aos engarrafamentos e à academia. Mas tenho meus momentos de ciclista de verdade, ou pelo menos aqueles em que me sinto um. Hoje foi um desses.
Não sabia como seria, estava até um pouco ansioso. Tanto que até acordei alguns minutos antes que o despertador fizesse seu escarcéu. Cumpri a rotina de alimentação e alongamento como manda o figurino e parti.
Tinha combinado com um amigo de nos encontrarmos às 4h15 em um ponto no Aterro do Flamengo. Cheguei um pouco antes e, como não havia o tal carro de polícia que supostamente estaria estacionado ali àquela hora, pus-me a dar voltas que me permitiam monitorar o ponto de encontro em intervalos curtos sem que, de outra forma imóvel, ficasse exposto a contratempos. Ladrões, você sabe, esse tipo de coisa que quase não existe no Rio.
O fato é que aquela hora em que fiquei esperando meu amigo serviu para mudar um pouco meus conceitos. Não vi perigo algum. Nada de bandidos brotando das trevas, carros sinistros ou criaturas malignas à espreita.
Vi, sim, um tiozinho fazendo seu cooper às 4h da manhã. Parecia ser pessoa humilde. Talvez fosse aquele o único horário em que podia se sentir um pouco atleta ou um pouco super-homem antes de começar o dia de trabalho que o veria misturado às pessoas comuns, em geral sofredoras ou entediadas, recebendo ordens de chefes e patrões idem. Em meu trajeto de espera, cruzei com o sujeito algumas vezes. Na primeira, não nos comunicamos. Na segunda, talvez tenha havido qualquer tipo de meneio de cabeça. Da terceira em diante, já rolava um aceno mútuo e um meio-sorriso. Impressionou-me a seriedade do sujeito, que, como eu, treinava em círculos. Vai ver até marcava o tempo de cada volta. Ele era um pobre-diabo, eu estava convencido. Com o que trabalharia? Quem sabe em meio ao lixo, ao cimento, ou a uma aborrecida papelada. Mas ali ele era tão campeão quanto eu, no faz-de-conta libertador daquele escuro silente. Campeões treinando. Eu para vencer algo como um Tour De Nada interior, sentir-me no auge, sentir-me vivo. Ele para quê? Aposto que para a mesma coisa. E funciona.
Vi também uns coroas bem coroas caminhando no Aterro, em grupo. Eram uns seis ou sete, e havia também mulheres. Eles não pareciam preocupados com medidas precisas de desempenho, não. E, pela idade, também não passariam o dia com as almas apertadas num nó de gravata, fosse ela italiana ou borboleta. Então por que diabos escolheram aquele horário para se exercitar? Será verdade que é menos perigoso de madrugada? Bandido dorme?
Parece que sim. Já travesti não dorme. Não à noite. Vi um trabalhando em pé, atrás de uma árvore. E um cliente em plena satisfação de suas necessidades cósmicas. Eu os vi em uma de minhas voltas de espera, que duravam em torno de 5 minutos cada. Curiosos personagens da noite, que na volta seguinte já tinham desaparecido como que por mágica.
Vi muito mais gente acordada àquela hora. Taxistas em frente ao aeroporto, motoristas de ônibus e caminhão, lixeiros, frentistas, policiais, um bando de corujas acostumadas ao horário invertido. Ah, sim, e dois times de camisa numa animada partida de futebol num daqueles campos do Aterro. Com direito a torcida. E eu que levantei achando que ia fazer algo de muito extraordinário…
Na verdade, parece que há alguns grupos de ciclistas sérios que treinam nas madrugadas cariocas. Meu amigo é um dos que tem alguma experiência nisso. Mas hoje não os vi, nem unzinho. Também não vi meu amigo, que deve ter tido algum problema e não conseguiu se comunicar.
Depois de embromar o suficiente para ter certeza de que ele não viria, comecei a dar um pouco de ritmo e consistência ao treino. Girei mais um pouco no Aterro, depois fui até Copacabana. E só não vi o sol nascer na Praia Vermelha porque hoje ele simplesmente não nasceu (tinha começado a chover e está chovendo e ventando bizarramente até agora — e piorando — num dia daqueles bem escuros). Pedalei, então, direto pro trabalho.
O interessante é que não há em minha roupa ou comportamento qualquer indicativo de que eu tenha passado a noite pedalando em meio a atletas pobres, velhinhos insones e troncos de árvore malbaratados. Quem olha não diz. Bom dia. Bom dia. É apenas uma manhã de quarta-feira, o começo de um dia comum.
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May 9th, 2007 at 3:37 pm
Hahaha …
May 17th, 2007 at 4:55 pm
Tu é definitivamente maluco, Vinícius… rs… Não deve ter visto, porque estava escuro, mas ELE estava lá, bem no alto, olhando por ti… A cada pedalada, sem nunca vacilar nem parar de observar, ELE ficou de olho em você. Qual “ELE”? O urubu, caramba! Claro, né? aehuaehuaehaueh
May 19th, 2007 at 9:09 pm
Admiro sua coragem…rs
Beijo grande!
May 24th, 2007 at 3:52 pm
Sempre, sempre sua fã, menino especial….
Beijocas
July 29th, 2007 at 7:16 pm
“…no faz-de-conta libertador daquele escuro silente.” Fiquei sem uma letra. Palavras então… Mas uma lágrima… umas duas ou três resolveram o problema.
February 1st, 2008 at 11:24 pm
Muito bom teu texto, cara. Vou deixar link no meu blog.
Abs.