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Tour da Serra

(Postado em 16/08/07, às 17:58.)

Pretensiosos, os meninos. Seria como uma etapa de montanha da Volta da França em solo pátrio. Senão, vejamos: 220 quilômetros, 2 subidas hors catégorie, 2300 metros de aclive. A diferença é que tínhamos um dia inteiro para isso.

O dia em questão, combinado com a antecedência de um bom par de semanas, veio a ser um belo, irretocável sábado de sol. Mas começou bem antes de qualquer raio de sol para os quatro empolgados cidadãos que se encontraram às sete horas mais alguns minutos na Rodovia Washington Luís: eu e o velho-e-bom Fabricio de outras crônicas, em bicicletas de estrada; em bicicletas de montanha, André Magoo, que finalmente conhecemos ao vivo, e seu fiel escudeiro Jairo. (Ei, André, procure saber com sua mãe direitinho: você é irmão do Floyd Landis e nunca lhe contaram — ou então clonaram o sujeito!)

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Comunhão de estilos no Alemão

Depois de um lanche estratégico na tradicional Casa do Alemão, começamos a pedalada. A subida para Petrópolis se deu sem grandes percalços. Nem para nós, que fizemos tudo como manda o livro, nem para os malandros-preguiça que passavam, agarrados a traseiras de caminhões, em perigosas caronas-ímãs. Sem capacetes, sem nada. Desconhecem, na certa, os riscos a que se expõem. Mas deram sorte, dessa vez.

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Jairo, Floyd e Fabricio

Desconhecem também que perdem o melhor da festa, aqueles lá. Subir é a graça. Aliás, sobre o prazer de se pedalar morro acima, em algum momento o Fabricio cunhou — de improviso, até onde sei — verdadeira pérola: “ora, a gente só desce porque tem que subir”. Bravo! Lindo exemplo de inversão da sabedoria popular.

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A primeira serra

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André Magoo e o arvorio da Rio-Petrópolis

Já no alto da serra, outra parada. De acordo com o combinado, haveria um quinto elemento conosco, o Ironman (fala, rapeize) do fórum ciclístico do Pedal.com.br. Continuamos, no entanto, desconhecendo a pessoa e seu verdadeiro nome, pois algum tipo de imprevisto impediu que ele se juntasse a nós em Petrópolis, onde mora. (Fica para a próxima, Iron, que serão muitas. Mas qual o seu nome, afinal?!)

Do fim da primeira escalada em diante, seguiram apenas as estradeiras. As mountain bikes de nossos dois mais recentes amigos voltariam dali mesmo. À base de sanduíches, Coca-Cola e fotos, comemoramos a bem-sucedida serra e despedimo-nos.

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Foto final do grupo, na entrada de Petrópolis

Partimos, então, em menor mas ainda plural número, para atingir mil redondos metros de altitude e despencar, em seguida, pela agradável e muito bem pavimentada descida que leva a Itaipava.

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Foto tirada em movimento (com medo, claro!)

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Indo para Itaipava

Em Itaipava, não tínhamos a menor preocupação de não conseguirmos fechar o circuito. Sim, faltava a serra até Teresópolis, que é durinha, mas depois seriam quase vinte quilômetros de descida e um estirinho plano de oitenta, durante o qual revezaríamos o homem de frente até o Rio, lar doce lar. Nada a temer.

Estávamos tão tranqüilos e autoconfiantes que, num posto em que paramos para completar a água, pedimos para um belo espécime feminino tirar uma foto da dupla. O próximo passo seria puxar assunto com a donzela e convidá-la a ficar do lado certo da lente fotográfica (viajores-ciclistas que éramos, desejosos de seguir a tradição — que vinha sendo mantida pelas oitenta e sete cidades que já tínhamos visitado naquela viagem — de escolher ao acaso uma pessoa de cada lugar para aparecer com um de nós na foto, e por aí vai). Algo no seu jeito de aguardando-alguém, no entanto, tornou menos atraente a lorota e vi-me compelido a clicar a beldade de forma sorrateira e clandestina. Depois o Fabricio comentou do bambolê dourado em seu anelar esquerdo. Eu não tinha nem notado!

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Que tal? :-)

Deus castiga os paparazzi clandestinos e sorrateiros. A poucos minutos dali tive um câmbio traseiro quebrado! Um mero limitador mal ajustado, somado à burra tentativa deste que vos fala de, em movimento, fazer uma corrente escapulida voltar aos eixos na base da brutalidade e da grosseria, e o resultado foi um um parafuso quebrado, uma gancheira empenada, um câmbio entortado e solto, raios amassados, uma roda travada e eu quase no chão.

E muitas horas perdidas e quatro mãos imundas de graxa, é verdade; mas o infortúnio proporcionou, por outro lado, o momento mais engraçado da brincadeira: Fabricio me rebocando — já que minha corrente estava solta, com o câmbio dependurado, impedindo-me de pedalar — por uns seis quilômetros, puxando minha carcaça inútil pela alça da mochila! Tentamos de tudo: puxar pela mão, pelo braço, empurrar as costas… mas o que nos valeu mesmo foi a alça do Camelbak! Às vezes eu fazia também como no carro dos Flintstones e empurrava o chão para trás, com as pontas dos pés. Sim, foi ridículo.

Mas Deus também se apieda dos paparazzi sorrateiros. Encontramos um excelente mecânico, o Ronaldo, que consertou tão bem o estrago que a bicicleta ficou melhor do que antes. Tudo por trinta dinheiros. Que ele não me leia, mas, no desespero em que estava, teria desembolsado o dobro ou o triplo, feliz.

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Ronaldo em ação

Por pouco não voltamos de Itaipava direto para o Rio. É que, tendo recalculado os tempos considerando as várias horas jogadas fora, vimos que seria impossível completar o trajeto à luz do dia. Tementes à morte, precisávamos replanejar: ou bem continuaríamos até Teresópolis e depois tomaríamos um ônibus para casa, ou voltaríamos para o Rio dali mesmo. A idéia do ônibus me soava loser demais, afinal o plano era sair de casa e a ela retornar usando apenas comida como combustível. Mas que bom que eu não estava sozinho, e fui convencido de que seria ainda mais fracassado trocar uma subida antológica por uma descida sem novidade alguma. Certíssimo.

Se o estrago do câmbio promoveu a parte tragicômica do passeio e quase lhe pôs prematuro termo, não demorei a ver que a parte maravilhosa, fantástica, incrível e sensacional estava só começando. Você que pedala e é dos que pensam que no Brasil não há subidas que se comparem às européias, tomarei como ofensa pessoal se não encaixar agora em seus planos a travessia dessa estrada que liga Itaipava a Teresópolis, fora de brincadeira. Meu amigo, chego a ter preguiça e medo de tentar descrever a beleza daquela serra e daquela estrada; melhor deixar pra lá. Prefiro assim, então: confesso-me um preguiçoso incompetente e deixo que as fotos façam o serviço. O velho truque. Mas algo me diz que ninguém vai reclamar.

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Itaipava-Terê

Aterrissamos em Terê com menos de dez minutos de antecedência para o ônibus das 18h. O próximo seria apenas às 19h. Compramos as passagens e os lanches “para viagem”, depois entramos no bagageiro do ônibus para prender as bicicletas com os cabos extensores comprados na loja do Ronaldo. O motorista teve que nos esperar uns minutinhos, mas ninguém fez cara de bravo quando embarcamos. Daí foi só relaxar.

What a day. Incompleto, é verdade. Mas, ainda assim, um clássico.

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A volta

PS. Da rodoviária do Rio até minha casa foi mais uma hora de pedal. Iabadabadu!

Veja também:
– os mapas e números do dia;
– o álbum de fotos completo.


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11 comentários em “Tour da Serra”

  1. Cida diz:

    Louvo a disposição desses bravos e a flexibilidade D’O CARA, que, depois de tanta atividade física, tem gás para colocar esta novela no ar. Em horário sempre nobre.

  2. André Magoo diz:

    Grande Vinícius!

    Sempre com suas excelentes narrativas, fazendo com que queiramos repetir a dose!

    Apesar da semelhança (que fica só na aparência, nos pedais está longe!!) com certeza não tenho nenhum parentestco com o Landis, hehehe!

    Já estou me preparando para sofrer menos na próxima vez que agendarmos outra aventura!

  3. Ronaldo diz:

    Eai meus amigos já deu para ver que consegui minimizar o estrago na bike que bom que gostaram do seviço ,ha quanto ao valor cobrado essa é a politica da loja fazer o melhor possível por um preço justo,e não se esqueção passando por aqui não deixem de dar um alô um abraço Ronaldo

  4. renato diz:

    fala ae play tranquilo aqui e o renato q estava em petropolis com uma moton-bike preta vi as fotos de vc ficaran show vlw

  5. vigusmao diz:

    Grande Ronaldo, que bom que passou por aqui. Fique tranqüilo que só terei boas recomendações da loja e do seu ótimo serviço. Um abraço!

    Renato: obrigado pela mensagem. Cuidado com as caronas nos caminhões, e bom pedal.

  6. Alessandro diz:

    Da próxima vez vai levar a cordinha? :D

    Em Itatiaia quase usei… Só não achei uma árvore baixa o suficiente para pendurar nem um banquinho para subir, hahahaha…

  7. hdab diz:

    Cara… Fico com uma certa “inveja” ao ler esses relatos e também vergonha dessa preguiça sinistra que se abate sobre mim, quando o assunto é levar mais a sério o pedal. Apesar de pedalar ser algo solitário, um solitário em grupo é sempre mais interessante. #P

    Ao mesmo tempo, fico imaginando como seria meu desempenho num passeio desses: acho que ainda não estou com gás pra encarar 100-200 e tantos km de pedal. Outras coisas que também me assustam um pouco são linhas amarela, vermelha e 040. Se na av. das américas nego não tem dó nem piedade, imagina nessas vias expressas. Tava pensando na idéia de ir até Sta. Cruz, pra dar uma variada nos trajetos, mas não sinto a menor confiança no trânsito daqui - aí fico tentando bolar uns itinerários no âmbito Barra-Recreio, mas isso é muito limitado…

    []s,
    Hermes.

  8. vigusmao diz:

    Grande Hermes, obrigado pela sua mensagem.

    Entendo perfeitamente seu receio com relação ao trânsito. Eu também o tinha, e muito. Quanto mais você pedala, no entanto, mais solta e natural (embora sempre defensiva) fica a sua postura no trânsito, e mais confiante você fica na sua capacidade de antever problemas e evitar que se concretizem.

    O que sugiro é que você comece a pegar ALGUM trânsito em lugares não tão brabos como a Linha Vermelha (a 040 é bem tranqüila, tem um ótimo acostamento). Uma sugestão seria vir para os lados de Jacarepaguá. A Freguesia, por exemplo, tem trânsito, mas normalmente lento, pois há muitos cruzamentos (diferente da Barra e do Recreio, onde os carros passam quase sempre a mil por hora). Agora, pelo amor de Deus, use capacete e cumpra as leis do trânsito. Nada de contramão, nada de pedalar de noite sem iluminação adequada etc. O medo vai sendo aos poucos vencido. Hoje eu não tenho medo algum e a bicicleta é meu principal meio de transporte.

    O problema das viagens ou treinos em estrada é quase sempre sair da área urbana. Estando fora, tá tranqüilo.

    Obrigado, de novo, por sua visita. Uma vez por semana (no mínimo) tem história nova. Ficarei honrado com suas leituras e comentários.

    Se tiver alguma dúvida, deixe um comentário ou mande-me um e-mail.

    Grande abraço,
    Vinícius.

  9. Márcio Fonseca diz:

    Li na ordem cronológica inversa. Agora compreendo melhor a determinção na semana seguinte. A propósito, as tuas fotos também falam.
    Um grande abraço.

  10. vigusmao diz:

    E aí, Márcio, meu amigo! Obrigado por suas mensagens, fico feliz que tenha gostado dos textos e fotos. O fim-de-semana foi muito bom, não paro de lembrar. Na próxima maratona (ou meia), prometo estar melhor treinado para (tentar) acompanhar meus amigos gaúchos! Abração.

  11. Flávio diz:

    Parabéns pelo site, e parabéns também ao fotografo, pois as fotos estão muito boas e dizem tudo a respeito do passeio.

Deixe seu comentário (qualquer coisa, pô!)