Tour da Serra 2
(Postado em 31/08/07, às 16:21.)Há duas semanas, nossa tentativa de fechar os duzentos e vinte quilômetros serranos foi frustrada por problemas mecânicos. Motivados pelas bem sucedidas peripécias do fim-de-semana anterior, sentíamo-nos novamente prontos para encarar o montanhoso desafio. Desta vez, meu câmbio traseiro comportar-se-ia maravilhosamente. Mas nem tudo.
Saí de casa, pedalando, às 6h20. Eu e Fabricio íamos nos encontrar na estratégica Casa do Alemão do começo da Washington Luís. Por conta de um rasgo lateral no pneu traseiro que fez meu amigo improvisar um manchão com remendos de câmara, aguardei-o por uns vinte minutos, tempo esse devidamente convertido em sanduíches e sucos de laranja.
Partimos às 8h. Como sempre, os primeiros quilômetros juntos foram cumpridos num ritmo entre sossegado e sonolento. Simplesmente girávamos solto, botando a conversa em dia e preparando-nos para o que estava por vir. Fabricio comentou que trazia consigo um extensor (um daqueles elásticos com ganchinhos nas pontas) e que amarraria a bicicleta dele à minha caso cansasse no meio do caminho. Era só uma piada, evidentemente. O extensor de fato existia dentro de um bolso de camisa, mas apenas para outra eventualidade que nos obrigasse a colocar as bikes, muito bem presas, num bagageiro de ônibus.
A primeira subida, até Petrópolis, pode ser feita num ritmo bem forte. Queríamos, no entanto, poupar energias para o restante do dia e maneiramos o passo. Logo me pareceu, porém, que meu companheiro de pedal maneirava um pouco mais do que o necessário. A dor em sua perna direita já dava os primeiros sinais.

Primeiras subidas: Petrópolis, depois Itaipava
Todo mundo tem um dia ruim. A história do esporte — e do ciclismo, em particular — é repleta de casos famosos de gigantes que sucumbiram a essa máxima infalível. Decerto cada corpo tem lá suas idiossincrasias e há dias em que, por um motivo ou outro, simplesmente se recusa a colaborar. A explicação, se existe, nem sempre é óbvia; daí a impressão de que os órgãos têm vontade própria e o dia ruim seria algo como uma greve não-declarada. É nessas ocasiões, porém, muito mais que no sprint final, que se distingüe o campeão do vulgo, o impávido do tímido, o mortal do reles. Uns desesperam-se, lastimam, praguejam, trapaceiam, culpam, justificam, desistem; outros simplesmente seguem. Como podem.
Em Petrópolis, seu desgaste físico já era como o de um dia inteiro de pedal, e temi que não pudesse mais continuar. Descansamos, hidratamo-nos, conversamos à toa. Em breve, porém, tudo provaria ser pouco eficaz. Era seu dia ruim, nada havia que fazer.
A tônica passou a ser a conservação máxima das energias físicas e mentais do meu amigo. O próximo destino, Itaipava, até que foi atingido sem dificuldades, ajudados que fomos pela enorme e relaxante descida que há após pequeno trecho ascendente. Bom, também, foi poder mudar um pouco o foco, contemplando a paisagem e a natureza ao redor enquanto zuníamos ladeira abaixo.
A primeira coisa que fizemos em Itaipava foi passar na Montanha & Aventura, local de trabalho do Ronaldo, profissão salvador-da-pátria, que nos socorreu no primeiro Tour. Morcegamos um pouco enquanto batemos papo com ele, gente finíssima. Mais à frente, fizemos nova parada para refrescar as idéias e finalmente seguimos para a segunda grande subida do dia.
Mas a coisa, definitivamente, já não ia bem. Isto ficou muito claro quando a dor de meu parceiro fê-lo parar novamente, antes mesmo de começarmos a subir.

Vida de gado à base da Itaipava-Terê: prenúncio de dureza
(É verdade: tinha um boi no meio do caminho. Mas mudanças de foco não ajudavam mais tanto assim.)
Foi então que senti verdadeiro orgulho do meu amigo. Após breve descanso à sombra das últimas placas de direção antes da belíssima e terrível serra que nos separava do próximo lugar habitado, decidiu ir adiante, firmemente, “nem que tenha que empurrar.” Teria sido indiscutivelmente mais fácil dar meia-volta, pedalar uns poucos quilômetros no plano e entrar no primeiro ônibus, ali mesmo. Mas quem opta pelo fácil quando a outra opção é o honroso? Meu amigo não.

Serrinha do Mal: a vencedora do dia
Corajoso, seguiu em frente. Embora preocupado, eu ia também feliz por confirmar que meu companheiro de aventuras é tão raçudo quanto eu imaginava. Sua cabeça ia baixa, assim como a cadência de nossas pedaladas; mas não o moral: haveria, sim, de chegar ao topo!
Quinze quilômetros de escalada pela frente, bem mais íngremes que todos os anteriores. Sentia-me pouco útil, sem poder fazer por onde minimizar os problemas que o afligiam, e que àquela altura já não estavam circunscritos à perna, mas a todo o organismo superexigido. Se eu não podia ajudá-lo muito, ajudou-o a clareira atrás de uma pontezinha que tem ali pelo meio da subida. Nela fizemos demorada pausa. Fabricio deitou-se num pedregulho plano e… dormiu! Literalmente, um sono de pedra. De sonhar e tudo, segundo relatou, em seguida, estupefato com a própria cara-de-pau. Para não perturbá-lo durante a pequena hibernação, aproveitei para fotografar o cenário, o que fiz com muito gosto. (Parece que há uma cachoeira por ali, mas cachoeira não vi.)
Ah, o poder refazedor do sono! Fosse meu o filme e ele teria acordado novo, ódio no olhar, espumando de vitalidade e fúria qual Popeye depois do espinafre. E teria destruído os quilômetros finais. Mas o filme era a vida real e a parte mais braba daquela realidade inclinada estava ainda por vir. Não deu. A persistência, a valentia e a fortaleza moral vão até o limite da total exaustão física, não além. E momento houve em que ele mal conseguia girar os pedais, sua dor era quase palpável.
Foi então que entrou em cena o elemento mais engraçado — em retrospecto! — da história: o extensor, o extensor que tínhamos no bolso! Alguma idéia, leitor?

O esforço antes da última parada
Na mosca! Eu me sentia bem o bastante para que o reboque, ladeira acima, não fosse uma loucura total. Prendemos as bicicletas uma à outra e fomos para cima em nossa tandem — aquela bicicleta comprida, com dois bancos — improvisada. Para tentar entender exatamente o que estava acontecendo, pedi ao rebocado que não pedalasse absolutamente, por uns momentos. Entendi. E como! Um forte puxão para trás fez ver que não seria moleza se ele parasse de todo. Era como pedalar acionando os freios.
Mas o heroísmo da cena me empurrava adiante, e a gambiarra acabou funcionando melhor do que a encomenda! Não seria exagero dizer que a velocidade estava até decente, e subimos uns bons quilômetros daquela forma: eu dando tudo que tinha, ele alternando momentos em que conseguia dar uma boa ajuda com outros em que me expunha involuntariamente àquele puxão quase gravitacional. Fomos assim até bem perto do topo; paramos apenas quando arrebentou o extensor. Mas logo surgiu a longa e salvadora descida.
A descida, felizmente, ia até Teresópolis. E aí não houve mais conversa. Apenas um abraço de irmão e o ônibus que o conduziria de volta ao Rio. A bicicleta iria amarrada ao bagageiro, o extensor remendado agora em função menos exótica. Enfim, meu amigo pode não ter feito a exibição de gala que já o vi fazer doutras feitas, mas ganhou vários pontos no quesito macheza: encarar uma subida daquelas já moído e com fortes dores é de se tirar o capacete!
Já tinha sido uma baita aventura até ali; mais um dia clássico, imortal. Mas eu estava bastante inteiro, não era o meu dia ruim. E decidi encarar pedalando os cem quilômetros finais, apesar da hora já avançada. Fiz então uma visita de quinze minutos a meu pai, que estava em Teresópolis, com o intuito apenas de beijar sua barba, comer alguma coisa e abastecer minha água. Mas não tinha mesmo tempo algum a perder, ou a noite me pegaria na estrada.
Foi um verdadeiro contra-relógio. Perdi fotos incríveis do entardecer na Serra dos Órgãos, não podia me dar ao luxo. É que não há postes de luz em quase toda a Rio-Teresópolis, esse é o ponto. Então desci rápido como não costumo, sendo ultrapassado por poucos carros e ultrapassando vários. Depois voei pelas estradas planas, pedalando em pé durante grande parte do tempo. A cada minuto o sol aparecia visivelmente mais baixo no horizonte, eu só fazia acelerar cada vez mais. Foi belo.
Mas a noite, aos poucos, me engoliu na estrada. Primeiro foram os óculos escuros que tirei, depois foi a luz traseira que acendi; depois, enfim, o breu. Junto ao suspiro de alívio. Eu acabara de entrar na 040 — com muitos postes de luz! Foi a conta exata.
Só então relaxei e pus-me a inventariar os danos. Coração? Batendo. Pulmões? Normais. Cabeça? Feliz. Pernas? Pernas!?!? Que pernas? E ainda restava uma boa hora e meia de pedal.
Uma boa hora e meia depois, duzentos e vinte e cinco quilômetros completos, são e salvo, enfim. Só sei que cheguei em casa cansado pra caramba.
P.S.: O Fabricio ficou bem e já está pronto pra outra, ódio no olhar, espumando de vitalidade e fúria. Que venha o número três!
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August 31st, 2007 at 7:39 pm
Valeu, filho….
Bela aventura, mesmo com contratempos. Só que da próxima vez fique mais tempo em Terê para, além do beijo em minha barba, comermos um delicioso fondue.
Um beijão do pai.
September 1st, 2007 at 12:54 pm
Quando vi alquem de vermelho, nao tive duvidas que eh o Fabricio hahahaha
September 1st, 2007 at 10:15 pm
Fala Vinícius, estou sempre acompanhando as suas aventuras sozinho ou com o Fabrício virtualmente, um dia vou junto.
Um abraço, Frango
September 2nd, 2007 at 4:14 pm
Pai: irei com mais calma, sim!
Perine: Realmente! Fabrício e sua inconfundível indumentária de guerra combinando com o quadro!
Padilha: Cara, você tem que ir mesmo um dia. Será uma honra. (Vai ser moleza pra você, mas garanto que não vai se arrepender. É sempre divertido demais.) A próxima deve ser o “Circuito Serra e Mar”: Rio-Friburgo-Rio das Ostras-Rio, descendo de Friburgo para a Região dos Lagos pela estradinha que vai pra Casemiro de Abreu.)
September 3rd, 2007 at 10:16 am
Fantástico como sempre Vinícius…
Ao Fabrício, eu sei bem como é isso !!! já tive tambem, meu dia ruim. O que importa é que você não desistiu e foi até onde, realmente não dava mais !!!!
Forte abraço aos dois !!!!
September 3rd, 2007 at 10:37 am
Valeu, garoto!
September 3rd, 2007 at 11:06 pm
Sensacional, Vinicius.
Tenho que destacar a tua atitude como companheiro na aventura. Nos momentos mais críticos, assim como o Fabrício, optou pela alternativa mais difícil, seguir subindo e não voltar. Já estou na expectativa da tua possível aventura rumo sul, para podermos curtir alguns quilômetros juntos por aqui. Até lá vou pedalando por aqui e viajando pelas tuas crônicas.
Um grande abraço.
September 4th, 2007 at 9:51 am
Aí Marcelo…
MEEEEEENGOOOOO!!!!!
Depois ponho o meu relato…
September 4th, 2007 at 2:49 pm
CORDINHAAAAAA!!! E vocês ainda zoaram comigo em Itatiaia, hahaha!!!
Pô Fabricio!!! Que porra de dicionário é esse que você me mandou, do qual não consta o verbete “MORCEGAR”? Favor esclarecer de imediato!!!
Cara, liga não. Muita banana na semana e você fica zerado! aheuhuae… E não durma na presença de um fotógrafo desocupado viu! Sabe-se lá o que vai parar na net depois!!!
September 4th, 2007 at 2:53 pm
Alê: HUAHUAHUA! Morcegar: fazer corpo mole, distrair-se (no trabalho), pensar na morte da bezerra, flautear.
Márcio: valeu, garoto, pela mensagem. Um abração e até janeiro!
September 4th, 2007 at 8:48 pm
Alessandro,
eu nao dormi … desmaiei!!!!
September 6th, 2007 at 9:20 am
Putz! Pior ainda, pq desmaiado o sujeito se aproveita de você, podendo até te arrastar pra perto de um despacho e te colocar no lugar do frango pra fazer a foto, e como desmaiado que você está, não acordaria!!!
Amanhã volto a pedalar!!!! Yiiipiiieeeeee!!! Issssaaaaaa!!!
September 6th, 2007 at 7:15 pm
E aí Campeão ? Quer dizer que ainda está de pé a idéia de ir ao Sul ?? Vai ter a chance de conhecer a Bisavó mais querida de Santa Catarina e vai ser uma enorme alegria para ela que já lhe conhece muito de nome. Parabéns pelas conquistas.
September 6th, 2007 at 10:28 pm
Caracas quando impressionante como a cada relato o Sr. Pernito consegue se superar! Show de pedal e show de relato! Com esse extensor posso até antecipar minha visita ao Rio hauhauahua Mas para isso preciso que liberem a bianchello =/
Fabrício, quem nunca quebrou que atire a primeira barrinha de cereal! Mas vc fez bonito ainda se considerarmos a relação de louco que vc usa! e fico no aguardo do relato do “3″
P.S. Vinicius vc tem os perfis das subidas isoladamente?
September 6th, 2007 at 11:47 pm
Fala, Baianóvski. Tenho os perfis isolados, sim. Daqui a pouco coloco lá no “Subidas do Rio” (que era, no começo, da cidade do Rio, e agora já é do estado rsrsrs).
September 8th, 2007 at 6:15 pm
Editores do Brasil (ou não), favor transformar esta coisa incrível em livro. Pimeiro, segundo, terceiro, não-sei-quantos-volumes.
September 24th, 2007 at 2:29 pm
Depois de percorrer todo o trajeto, de carro, mais impressionante se torna.
E as fotos, embora passando pelos locais, só ganham; lastima-se ter perdido a visão do fotógrafo, que pode, mais de perto, parar e demorar-se extasiando-se ( e a nós ), com tanta beleza.
October 4th, 2007 at 9:11 pm
Passeio interessante, fotos excelentes. Mas entrei no link pelo título: “Alto da Serra”, que em referência a Petrópolis se refere a local completamente diferente: as imediações da rua Teresa, e a estrada antiga que vai a Magé e Raiz da Serra. Estava procurando coisas dali, onde passei minha infância (1945-55) na casa de meus avós. Mas apreciei fazer em fotos o passeio que vocês fizeram a cores.
Obrigado. Mas troquem o título!
October 4th, 2007 at 11:03 pm
Obrigado, Paulo, por seu comentário. Só não entendi sua questão com o título desta crônica — que é “Tour da Serra 2″, e não “Alto da Serra”, como você diz!
Grande abraço.